Nos anos sessenta no auge da explosão da jovem guarda, eu com 11 anos de idade, uma criança pobre, filho de uma zeladora da escola normal Antonino Freire conheci a cantora Wanderléa que me abraçou, me afagou, me beijou e disse que eu era seu namorado, tudo isso proporcionada pelo Aérton Cândido Fernandes, na ocasião ele era dono da loja Útil-Lar situada à Rua Barroso quase esquina com a Rua Coelho Rodrigues, daquele dia até hoje o Aérton como eu intimamente o tratava tornou-se para mim um ídolo.
Eu sentia que ele gostava de mim sempre estava me presenteando, me agradando com alguma coisa. Era um homem muito dinâmico, empreendedor, trabalhador, vencedor, um verdadeiro alquimista, em tudo que colocava a mão virava ouro.
Na minha pré adolescência fui embora de Teresina, só retornando em 2000. Em certa ocasião uma senhora muito pobre fez um apelo em uma rádio para adquirir doação de material escolar para os filhos, me sensibilizei com a precária situação e me comprometi a doar o material, mandei que ela fosse a uma loja do ramo e procurasse comprar tudo que precisasse no mesmo local e me informasse apenas o valor. A loja escolhida foi a Babylandia, o valor da mercadoria superou as minhas expectativas, pedi que me levassem a direção da empresa, fui atendido por aquele velho amigo de mais de 40 anos passados que eu nem lembrava mais. Lembro-me da primeira pergunta que ele me fez; – Você é daqui do Piauí? Respondi positivamente, ele retrucou com um questionamento; – não parece, o cego daqui não tem essa postura, em seguida me perguntou o que eu desejava, respondi; – quero pagar uma mercadoria com um cheque do Banco do Brasil pré-datado para 30 dias, ele me disse faça para 60 dias, respondi; – 30 é o suficiente, pois o dinheiro cai em minha conta no final desse mês, fechamos o negócio, a mercadoria foi entregue, a senhora foi embora feliz da vida e eu fiquei no escritório conversando e tomando um suco gelado.
Com o pouco diálogo que travamos veio tudo a tona, descobri que estava de frente do meu velho amigo da minha infância, para mim foi muito emocionante e daquele momento em diante eu tive todo apoio da empresa e de seu proprietário para desenvolver meus projetos. Ele me admirava, me respeitava muito e acreditava em mim, tanto é verdade que ele faleceu sem receber um dinheiro que me emprestou que agora quitarei para a empresa na pessoa da Raquel sua filha e minha amiga.
Estou contando esses detalhes para que as pessoas tenham conhecimento do que é ser amigo, estendendo a mão solidária para atender seu amigo sem fazer qualquer exigência.
Lembro-me que ele disse que viajaria a são Paulo para tratar de uma má circulação, quando voltou nos encontramos por acaso e ele disse que aquilo parecia não ter cura. Pela primeira vez eu senti um abatimento, uma desesperança, pois conhecia sua postura de valente e aguerrido, sempre pra cima, motivado e preparado para encarar qualquer obstáculo e vencer.
Fiquei sentido pela sua passagem para o outro plano, mas me alegro por Deus ter nos dado a oportunidade de convivermos aqui na terra onde ele construiu muito, ajudou e empregou muita gente, criou e desenvolveu suas empresas com a sua obstinação, talento, inteligência e competência sem jamais esquecer a solidariedade, fraternidade e sempre dirigindo um olhar carinhoso e atencioso ao mais frágil.
Quero nesse momento de saudade, de lembranças e de uma lacuna imprescindível existente, saudar com os meus pêsames a toda sua família enlutada na pessoa da Raquelzinha sua filha.
Que Deus criador de todas as coisas conceda ao meu amigo Aérton o lugar que ele merecer para descansar em paz.



