Ingratidão eterna

Segunda-feira(7) foi comemorado o aniversário da minha irmã mais nova, completou 70 anos de idade, foi uma solenidade simples, mas festiva, alegre e emocionante. Logo pela manhã após eu despertar fiz mentalmente algumas reflexões do dia do nascimento da Celene, morávamos em uma casa adaptada para nossa residência com a gentileza do saudoso professor Afrânio Nunes, na ocasião diretor da Escola Normal Antonino Freire.

Na época havia um processo de educação física fortíssimo, exigia das alunas empenho total, cujas notas e frequência influenciavam na aprovação do alunado, foi nesse espaço que servia de banheiro para as alunas após os exercícios que foi adaptado a nossa residência. Algumas professoras da escola Normal e do jardim de Infância Lélia Avelino, Grupo Escolar Félix Pacheco e Escola Modelo Artur Pedreira visitaram a minha irmã recém-nascida.

Lembro-me da professora Zaira, esposa do médico Lineu Araújo, professora Deise, esposa do Dr. Tancredo Serra e Silva, professora de educação física dona Tota, avó do governador Rafael Fonteles, professora Teresinha Soares e professora Teresinha, esposa do empresário Jamir, professor Clementino Siqueira, professor Chagas Careca e tantos outros.

O motivo especial dessa minha recordação refere-se exatamente uma máxima do Leonel de Moura Brizola, ao tomar conhecimento quer havia perdido a eleição da presidência do Brasil, declinou o seguinte: “Bocado comido é bocado esquecido, portanto não preciso dizer mais nada” se retirando ao jatinho estacionado no aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro. Tive o privilégio de estar presente naquela ocasião histórica.

Declino essa recordação de forma envergonhado, decepcionado e humilhado reconhecendo que o esforço dispendido pela minha mãe, Maria Rodrigues de Amorim, conhecida como “Baíca”, não teve o seu reconhecimento por parte de muita gente que ajudou, graças ao seu humilde trabalho como responsável pela merenda escolar, na época o tal leite pau de índio, amenizou a fome de praticamente todo o corpo discente nas instituições declinadas acima.

A cantina da Escola Normal era competência comercial, lembro-me nitidamente de famílias de parentes nossos que por algum motivo perderam condições de sobrevivência, dona Baíca acudiu a todos, uma com seis membros, outra com quatro e a última com cinco membros sem contar as excepcionalidades, éramos parecidos ou semelhantes a propaganda do Rexona sempre cabe mais um, bastava botar água no feijão.

Com o conhecimento e confiança conquistado por minha mãe distribuiu essas pessoas em casas de amigos, empresários etc. pelo que me consta nos dias atuais todos estão bem graças a Deus. A página de dificuldade que escreveram foi rasgada das suas mentes e das lembranças do passado, significando dizer que de toda essa gente apenas a Raimunda Maria Rodrigues de Sousa, popular Leleca, compareceu para prestigiar o aniversário da Celene, acompanhada do filho e marido.

Não quero com essa história desagregar nem constranger quem quer que seja, tenho convicção que minha mãe jamais imaginou, nem tão pouco pretendeu tirar proveito de um possível sucesso daquelas pessoas que tanto necessitavam de favores e sensibilidade naquela ocasião de vacas magras.

Dona Baíca, não era uma pessoa letrada, mas tinha uma consciência cívica e humanística extraordinária, se tivesse estudado imagino que seria uma psicóloga de mancheia, pois entendia tudo sem dar uma única palavra, ela conseguia ler a pessoa sem errar uma vírgula, eu, por exemplo, sou vítima dessas leituras da minha mãe, com base nos castigos físicos que sofri merecidamente. Portanto lamento profundamente esse gesto de desprezo que fomos vítimas.

Ao me pronunciar aos presentes, teci breve comentário em relação a esse episódio, minha mãe aos 97 anos sempre humilde e atenta disse em tom baixo em sua cadeira de rodas: “meu filho isso não vale nada, o importante de tudo é a vida”.

Parabéns a Celene, que conseguiu conquistar seu lugar em um espaço muito concorrido, extraordinária professora de educação física como sendo a primeira mulher a ocupar o cargo de treinadora de um time de futebol (JEBs), muita saúde e realizações a todos da família, Marcele, residente em Teresina e Marcelo residente com sua família em Cabo Frio no Rio de Janeiro.

Carlos Amorim– DRT 2081/PI

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Jornalista Carlos Amorim
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